Seja Bem-Vindo!

O CINEMA E A PSICANÁLISE: UM AO ENCONTRO DO OUTRO


Saturday, May 20, 2017

"A honestidade não é apenas compatível com a verdadeira gentileza - mais que isso, ela é a própria base da gentileza. A falsa gentileza corrompe e torna a verdadeira gentileza muito mais difícil. A não ser que vivamos a verdade, não poderemos nos comunicar de fato com as pessoas, não poderá haver confiança nem afinidade." A arte da gentileza: as pessoas mais gentis são mais felizes e bem-sucedidas, Piero Ferrucci

Friday, May 19, 2017

Agir com honestidade - mesmo correndo o risco de dizer uma verdade desagradável, ou de dizer não e contrariar as pessoas -, se for feito com inteligência e tato, é, no final das contas, a coisa mais gentil que podemos fazer, porque respeita nossa integridade e reconhece no outro a capacidade de ser compreensivo e maduro. Um professor de música que conheci me disse uma vez: "Sinto que sou mais gentil se disser ao aluno que ele não tem talento, e o aconselhar a interromper os estudos e procurar algo pelo que se interesse e tenha mais aptidão, em vez de incentivá-lo a continuar. Se, para não magoá-lo, eu disser algo em que não acredito, estarei enganando-o e, provavelmente, prolongando em anos suas dificuldades e sua derrota. No entanto, se eu disser a verdade, ele pode ficar chateado no início, mas pelo menos conhecerá sua real situação e poderá planejar com maior clareza seu próximo passo. Isso, para mim, é a verdadeira gentileza." A arte da gentileza: as pessoas mais gentis são mais felizes e bem-sucedidas. Piero Ferrucci
SINCERIDADE
Escrevi um texto inteiro sobre a sinceridade. É o texto do filme Capitão fantástico. Acho que dá para falar mais um pouquinho sobre o assunto. Sabem o que eu penso? Não queremos a sinceridade. Se quiséssemos, não ficaríamos ofendidos quando alguém responde para nós que nosso corte de cabelo não nos favoreceu, que a roupa não combinou e que não saímos bem na foto. Eu não sei nem por que perguntamos essas coisas. Se não estamos preparados para a verdade, de que adianta a gente perguntar? Ana Taglianetti, minha ex-professora de canto, perguntou certa vez para o pai se tinha talento. Foi antes dela iniciar os estudos. O pai disse a verdade. "Filha, você não é a mais talentosa, mas irá vencer pela persistência." E ela venceu. Ana se tornou uma grande cantora de musicais. Eu nunca ouvi uma voz tão bonita. Vejam como a vida é engraçada.

SER VERDADEIRO 
"Uma palavra não é a mesma quando usada por autores diferentes. Um a arranca das próprias entranhas, outro a tira facilmente do bolso da camisa." Exatamente isso. Uma pessoa verdadeira conhece o significado de cada palavra. Ela não chama de amigo quem não é amigo, não tenta parecer melhor do que é e não fica preocupada em agradar. Uma pessoa verdadeira é sempre comprometida com a verdade.

"Quando meu marido se suicidou, Robin Williams me confortou. Sim, Robin Williams. Quando o ator veio falar comigo, eu estava aos prantos. Nós estávamos no aeroporto. Ele disse para mim: 'O vício é uma desgraça real. Doenças mentais e depressão são a mãe de todas as desgraças. Sinto muito pela dor do seu marido. Sinto muito pela dor que você vive agora. Mas parece que você tem o amor da família e dos amigos. Isso ajuda a colocar as coisas em perspectiva, não?' Ele era uma alma gentil. Nos fez chorar, e nos fez sorrir. Robin Williams foi honesto comigo a respeito dos próprios demônios. Estava obviamente sofrendo. Aquela pessoa que trouxe tanta alegria aos outros sofria muito por dentro. Ele disse para mim que eu tinha uma linda risada. Um lindo sorriso. Quando nos despedimos, ele me abraçou. Foi um abraço extremamente caloroso. Nós não nos conhecíamos antes, mas nunca esquecerei o que fez por mim." Kate Lyon Osher

Thursday, May 18, 2017

VULGARIDADE
Não apenas as pessoas são vulgares. O nosso olhar sobre a vida pode ser vulgar também. Nosso olhar é vulgar quando não prestamos atenção nas coisas bonitas. Quando procuramos o ódio, a violência, os escândalos e o sensacionalismo. Além de ser bondoso, justo e sábio, Deus não é vulgar. Deus adora a beleza. Não a beleza da pessoa que mostra mais do que precisa. A beleza singela. A beleza amorosa. Muitas mulheres bonitas exibem o corpo, mas poucas revelam no olhar a alma que possuem. Gabriela Duarte nunca poderia ser vulgar. 

A moral dos Espíritos superiores se resume, como a do Cristo, nesta máxima evangélica: Fazer aos outros o que quereríamos que os outros nos fizessem, isto é, fazer o bem e não o mal. Neste princípio encontra o homem uma regra universal de proceder, mesmo para as suas menores ações.

Ensinamentos dos Espíritos superiores - O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec
Os parentes e amigos sempre se reúnem depois da morte?
“Depende isso da elevação deles e do caminho que seguem, procurando progredir. Se um está mais adiantado e caminha mais depressa do que outro, não podem os dois conservar-se juntos. Ver-se-ão de tempos a tempos, mas não estarão reunidos para sempre, senão quando puderem caminhar lado a lado, ou quando se houverem igualado na perfeição. Acresce que a privação de ver os parentes e amigos é, às vezes, uma punição."

As partes que levam ao todo (filme Fragmentado)
Por Caio Escorel caioescorel@outlook.com

Sempre tive vontade de escrever um livro de ficção. Mais precisamente, um livro de suspense. Como personagem principal, imaginei uma mulher extremamente autodestrutiva e cruel. Tão autodestrutiva e cruel que morre ao final da história. Mas não sem antes causar muitos danos a todos os personagens. Na história que tenho em minha mente, o leitor é enganado. Ele é enganado até a última página, quando descobre que as maldades da personagem são cenas do sonho de uma mulher (de mesma fisionomia). Minha personagem faz nos sonhos as coisas que não têm coragem de fazer na vida real. Ela seduz, trai, mata a mãe e rouba. Quando ela acorda do sonho, no entanto, deixa todo mundo estarrecido. Primeiro porque não é a pessoa que morreu. Segundo porque está viva. Terceiro porque não é má. A primeira coisa que ela faz ao acordar, para o espanto da pessoa que lê o livro, é ir até a cama da mãe: "Que saudade que eu estava de você. Trouxe o café da manhã."
Fragmentado, o novo e surpreendente filme do cineasta M. Night Shyamalan, é como a história que inventei. Fragmentado não é o que a princípio parece ser. Mas qual filme do diretor indiano é o que a princípio parece ser? Nenhum. O protagonista, Kevin, tem transtorno dissociativo de identidade. São 23 personalidades dentro do corpo do rapaz. São mais de 20 fragmentos de algo muito frágil: a personalidade de um garoto assustado.
As partes levam ao todo, mas o todo também pode ser dividido em partes. Na análise, por exemplo. Um paciente pode dizer que a vida (o todo) está uma merda. Ele pode fazer isso, mas pode também fazer o oposto. Pode chegar à conclusão de que a vida está uma merda somente ao final da sessão (através do entendimento das partes). Deus, como Kevin, é fragmentado. Existe, porém, uma diferença crucial. Deus sabe quem é. Mesmo estando em tudo, Ele conserva a identidade. Não a perde nunca. O mesmo não pode ser dito sobre nós. Podemos não ser loucos, mas isso não quer dizer que nos encontramos. "Quem não sofreu não teve chance de se tornar a melhor versão de si mesmo", disse Shyamalan. Como não concordar? Como não acreditar que nossos fragmentos não irão nos conduzir a algo especial? Quando eu estava no primeiro ano do Ensino médio, há quase 17 anos, espalharam meus lápis, canetas, borracha e apontador pelos quatro cantos da sala de aula. Foi muito humilhante precisar catar todas essas coisas na frente de todos os meus colegas, até porque a aula já tinha começado. Eu era muito novo nessa época. Não fazia a menor idéia de como seria a minha vida e nem o meu futuro. Mas já estava juntando as partes de minha alma. Para um dia poder ser inteiro e ajudar outras pessoas.
"Eu não sou essa pessoa que você está falando, Caio. Eu sou uma pessoa boa." Foi o que eu ouvi de alguém que me feriu gravemente. É a primeira coisa que as pessoas que têm dificuldade em reconhecer quem são falam. Que são boas. O orgulho não poderia gritar mais alto. Pessoas orgulhosas têm uma imagem tão idealizada de si mesmas que não sabem o que fazer com uma crítica. "Você pode não ser só isso, mas você também é isso", expliquei para a pessoa. Não satisfeita com o meu comentário, ela insistiu: "Você precisa de amor. Você precisa de muito amor." "Por que preciso de amor?", perguntei. "Você não acha que quem precisa de amor são as pessoas que ferem gratuitamente?" Ela ficou muda. Não sabia o que dizer. Outra pessoa, uma amiga, disse que julgo as pessoas. Não, eu não julgo. Apenas revelo o óbvio. Se eu não deixar claro para as pessoas quem elas são, elas vão me chamar de coisas que eu NÃO SOU. É necessário se defender. Só eu sei as coisas que tive que escutar na vida. Já me chamaram de tudo.
Não é arrogância dizer que Clarice Lispector, escritora prestigiada, era arrogante, afinal ela escreveu um texto cujo título é "Perdoando Deus". Vejam o tamanho da pretensão. Quem leu o texto de Clarice entende o que quero dizer. Clarice sentia raiva de Deus e da criação. Não somente de Deus e da criação. De si mesma. Por ter sido incapaz de sentir compaixão por um rato morto. Em última análise, quem precisava de perdão era ela, não Deus. Mesmo assim, a escritora não conseguiu ser humilde. Era tão tomada pela vaidade que não conseguiu perceber a contradição entre o título e o texto. Madre Teresa também era vaidosa. Foi uma decepção constatar isso. Fazer o quê? Madre queria ser santa. Escreveu inúmeras cartas afirmando isso. Queria e conseguiu. Mas não a admiro mais do que admiro minha mãe. Para a Madre, santidade tinha relação com sacrifício. Para ela, não para mim. Para mim, santidade tem relação com autoconhecimento. Somente o autoconhecimento é capaz de iluminar uma pessoa. A amorosidade da pessoa que se conhece é autêntica. Não esconde nenhuma pretensão, vaidade... A pessoa verdadeiramente amorosa, que se doa do fundo do coração, é santa sem perceber. Achamos que ser santo é dar banho em alguém. Pode até ser. Se você fizer isso com verdadeiro desprendimento, isto é, sem nenhum desejo de ser santo. Se você faz uma bondade para se sentir valorizado, o valor não é o mesmo. "Sou feliz em não ser ninguém. Nem mesmo para Deus", escreveu a Madre. Quem disse que Deus enxerga as pessoas com esses olhos? Será que ela não estava projetando Nele a maneira como via os outros? Com um sentimento de superioridade? Vamos refletir.


O caminho para o paraíso
Por Caio Escorel caioescorel@outlook.com
Como chegar ao paraíso? Será que existe um caminho igual para todos? Dorothy (O mágico de Oz), a mocinha interpretada pela inesquecível Judy Garland, chegou ao paraíso através da amizade. Ela percorreu a estrada de tijolos amarelos com os melhores amigos que poderia ter na vida. O mais bonito é que ela e os amigos já tinham as coisas que tanto buscavam. O espantalho já tinha a inteligência, uma vez que sempre escolheu ser bom. O homem de lata já tinha um coração, porque era generoso. O leão covarde já tinha a coragem, pois nunca teve medo de demonstrar os sentimentos. Não é a mesma coisa conosco? Será que já não temos tudo de que precisamos para ser felizes? Será que já não encontramos o paraíso? Quando vejo a alegria com que a Amora, minha cachorrinha, me recebe em casa, não consigo deixar de perceber como ela valoriza as coisas simples. É muito bom poder ser parte da felicidade que ela sente. 
Tenho boas lembranças do tempo de infância. Elas são meu paraíso. Minha mãe encapando meus cadernos com contact. Minha mãe limpando a saboneteira onde eu guardava minhas figurinhas. Minha mãe trazendo uma miniatura de cachorrinho para a minha coleção. Minha mãe decorando meus bolos de aniversário. Minha mãe parando comigo em bancas de jornais (até a gente encontrar as figurinhas!). Minha mãe comendo Donuts comigo no Carrefour da Marginal Pinheiros. Minha mãe encomendando a trilha sonora do desenho Aladdin na Hi-Fi, antiga loja de discos (as músicas tinham que ser em português! era difícil de achar). Minha mãe comprando o rocambole da Professora Helena (Carrossel) no supermercado. Minha mãe comendo bomba de chocolate comigo no Mappin.
Bastian, o personagem de A História Sem Fim, adorava visitar Fantasia, o país sem fronteiras, mas só encontrou o caminho para o paraíso quando percebeu que o que tinha de mais precioso era o amor da família. A imperatriz Criança perguntou para ele qual desejo gostaria de realizar. Bastian não pensou duas vezes. "Desejo ir para casa... e contar ao meu pai que o amo."

Wednesday, May 17, 2017

A luz que ilumina a escuridão 
Por Caio Escorel caioescorel@outlook.com
Quanto mais próxima da luz está uma pessoa, mais contato ela tem com a escuridão. Porque percebe coisas que acabam passando despercebidas para os outros. As pessoas humildes têm consciência da arrogância dos outros, mas têm também consciência da própria arrogância. É por isso que elas pensam duas vezes antes de fazerem um comentário infeliz. As pessoas arrogantes não agem assim. As pessoas arrogantes projetam as emoções e sentimentos que não querem enxergar em si mesmas nos outros. Acontece o contrário também. Acontece de uma pessoa arrogante elogiar outra pessoa arrogante. Sabemos que nem sempre as pessoas elogiadas são legais, mas não podemos falar nada. Se falássemos, não entenderiam. E por que não entenderiam? É fácil: porque elas não sabem ainda a diferença entre o orgulho e a humildade. O que para elas é considerado humildade, para nós é sinônimo de arrogância. Há pessoas que são desprendidas, mas ser desprendido não necessariamente significa ser simples. Giovanna Antonelli é desprendida. Ela paga as consultas médicas das pessoas que trabalham para ela e dá os brincos que está usando para a fã. Ela faz isso. Ela faz essas coisas maravilhosas, mas vive uma vida milionária. Corre que nem uma louca atrás do dinheiro. Celine Dion, cantora canadense, é outra pessoa desprendida. Imensamente generosa. Acho Celine incrível. Acho ela incrível, mas sei que também não é simples. Celine tem uma pessoa que segura até a garrafinha onde toma água. Mora em uma casa de milhões, fica irritada quando algo não sai do jeito que ela quer (porque está acostumada a ser cortejada), tem avião particular... Isso não é ser simples. Nem de longe. Simplicidade é viver com o essencial. É saber comer no restaurante e no boteco. É usar roupa de marca e roupa sem marca. É tomar sorvete da Kibon e sorvete da La Basque. É dar valor ao dinheiro (isso é muito importante!). É não ter sempre o último modelo de celular. É não cobrar caro por uma prestação de serviço. O Papa Francisco é simples. O Papa, não a Giovanna e a Celine. A simplicidade é o último degrau da evolução humana, por isso que é tão difícil de ser alcançada. 
Falei agora há pouco sobre o orgulho. No filme O Vestido, de Paulo Thiago, há uma cena muito interessante. É a cena em que Bárbara (Gabriela Duarte) e Ângela (Ana Beatriz Nogueira) conversam dentro da igreja. Ângela adora causar inveja nos outros. Faz isso porque é orgulhosa. Bárbara não perde a oportunidade de dar uma lição na personagem:
"Você não é simples nem humilde, Ângela. Quando você fala, eu sinto um orgulho profundo da vida que tem... um tom superior de quem, pra salvar a felicidade, é capaz de apostar tudo." É isso. Enquanto não iluminarmos a escuridão, continuaremos chamando ela de luz.
O espaço entre o sonho e a realidade 
Por Caio Escorel caioescorel@outlook.com
Ninguém acreditou quando a equipe do filme La La Land, que já estava no palco do Oscar, precisou entregar o prêmio de Melhor filme para a equipe de Moonlight. Eu me lembro que demorei para entender o que estava acontecendo. Todos nós, imagino. Estava tão envolvido pelas músicas vibrantes do filme de Emma Stone que cheguei a ser superficial por um breve momento. É sempre mais fácil ser superficial, vocês sabem. A vitória do filme de Barry Jenkins, no entanto, me trouxe de volta à realidade. 
La La Land é lindo, mas não tão lindo como Moonlight. Porque é sedutor. Porque não é triste. As coisas que seduzem tiram nossa atenção daquilo que merece ser notado. Como me sinto feliz ao conseguir passear no shopping e ainda assim não sentir vontade de comprar nada. Nem sempre foi desse jeito. Nunca fui um grande consumista, mas também não era profundo como sou hoje. Quem diz que o tempo não faz bem não sabe o que está dizendo.
Leila Lopes, atriz que se suicidou, foi chamada de superficial por uma amiga minha. "Ela não era profunda. Se tivesse sucesso, não teria tirado a própria vida." Eu penso diferente. A meu ver, a atriz era muito profunda. Viu a besteira que fez com a própria vida, o filme pornográfico, e não aguentou o peso da culpa. Tantas aguentam, não é mesmo? Tantas não se sentem agredidas com as muitas Playboys e filmes eróticos que fazem. Com Leila não foi assim. Porque ela tinha a lei de Deus gravada no coração. Religiosa e espiritualizada, percebeu o quanto havia se afastado de tudo que acreditava. Foi embora sim, mas antes deixou claro a todos nós que tinha (tem!) um grande coração. "Tive uma vida linda, conheci o mundo, vivi em cidades maravilhosas, tive uma família digna e conceituada em Esteio, brilhei na minha carreira, ganhei muito dinheiro e ajudei muita gente com ele. Realmente não soube administrá-lo e fui ludibriada por pessoas de má fé várias vezes, mas sempre renasci como uma fênix que sou e sempre fiquei bem de novo. Aliás, eu nunca me importei com o ter. Vivi a minha vida procurando ser uma pessoa boa. Se existe sentimento maior que o amor, eu desconheço!”
A vida não é fácil. Ela não é o tempo todo bonita e muito menos justa. O filme Um encontro com seu ídolo, de Robert Luketic, retrata muito bem o descompasso que existe entre a vida que merecemos ter e a vida que realmente temos. A protagonista do filme, Rosalee, ganha um sorteio. Como qualquer garota do interior, ela nunca imaginou que um dia teria um encontro romântico com o ator de cinema Tad Hamilton (Josh Duhamel). Contrariando todas as expectativas, Rosalee ganha o sorteio e deixa seu colega de trabalho, Pete (Topher Grace), desesperado. Profundamente apaixonado pela jovem (porque a conhece), ele fica ainda mais preocupado quando Rosalee e Tad começam a se apaixonar. A penúltima cena do filme é maravilhosa. Uma conversa entre o pai de Rosalee e Pete sobre as injustiças da vida. "Eu sei quem gosta mais da minha filha. Eu sei com quem ela deveria ficar. Mas o mundo não é justo, Pete."
Há uma beleza na tristeza. Talvez seja Deus sofrendo através de nós, não sei. Como disse o poeta Manuel Bandeira, a beleza é triste. Não é triste em si, mas pelo que há nela de fragilidade e incerteza. Concordo. 
La La Land tem muito a nos ensinar. Moonlight também. A realidade, contudo, não está em nenhum dos dois filmes, mas no espaço que separa o sonho da realidade. Entre o sorriso cheio de vida de Emma Stone (La La Land) e o olhar triste de Chiron (Moonlight). Não sei como podemos chegar a esse lugar. Amando? Sofrendo? Ferindo os outros? Talvez fazendo um pouco de tudo isso. Talvez vivendo.

Tuesday, May 16, 2017

A beleza de todos nós (A Bela e a Fera)
Por Caio Escorel caioescorel@outlook.com
Toda vez que vejo uma mulher muito bonita ao lado de um homem feio, sou obrigado a reconhecer que o amor existe. O amor também existe entre os bonitos, mas estou me referindo aos casos onde a beleza não foi o que mais chamou a atenção de uma pessoa bonita. É o que acontece no filme A Bela e a Fera, da Disney. A mocinha, Bela, se interessa pela Fera, uma criatura peluda e desproporcional. A história faz sucesso desde o século XVIII, encantando gerações. Eu, particularmente, nunca achei muita graça no conto. A mensagem é linda, mas distante da realidade da maioria. O fato é que a beleza exterior ainda é bastante valorizada. Por ser evidente, provavelmente. Por provocar desejo. Vejo artistas lindíssimas com mães não tão bonitas, não entendo como conseguem ser tão superficiais. Se entendessem a magnitude do amor que receberam, veriam as pessoas com olhos um pouco mais generosos. Tenho desprezo por pessoas que só tratam bem as pessoas bonitas. Não estou falando somente de relacionamentos amorosos, e sim dos contatos diários de todos nós (supermercado, padaria, farmácia, banco, etc). Não vou nem comentar o que acontece nas baladas, porque balada é sempre um capítulo à parte. Balada não é lugar de grandes gentilezas. Nunca foi. Balada é lugar de competição. De caça. A crueldade nas baladas fica escancarada. 
Eu não ligo de ser paquerado por pessoas muito feias. Nunca liguei. Até porque me considero bem normal. A verdade é que todos nós somos merecedores de atenção e respeito. Todos, sem exceção. Não quero, porém, soar falso. Eu não sei (não sei mesmo!) se seria capaz de amar alguém, sem, no entanto, sentir alguma atração física. Por outro lado, penso que seria capaz de continuar tranqüilamente ao lado de uma pessoa que perdesse uma perna, um braço, a fala... Ou que tivesse o rosto deformado por um acidente.
Pessoas interessantes são raras. Não tem a ver com beleza. Vejam o exemplo da Glória Pires. Gloria nunca foi uma mulher lindíssima, mas sempre foi interessante. Ela sempre transmitiu segurança, delicadeza e força. Dá de dez a zero em muitas atrizes belíssimas. Acho Glória Pires mais interessante do que a Maitê Proença e a Bruna Lombardi misturadas em um liquidificador. O mesmo pode ser dito a respeito da Kate Winslet. Nunca poderia ser considerada feia, porque é um ser humano profundo e sensível. Eu não sei como Leonardo DiCaprio, heterossexual, nunca enxergou em Kate o que eu enxergo. Ela é deslumbrante. Minha mãe, Vera Lia, sempre teve uma beleza impressionante. Mas sempre foi uma beleza doce, não uma beleza sexy. Mamãe sempre teve ternura. Mesmo sendo linda, ela nunca quis ser modelo. Porque nunca foi voltada para si. Mamãe optou por ser uma pessoa que se doa e distribui amor. É um exemplo para mim, pois possui uma beleza que todos nós podemos possuir: a beleza que vem de dentro. Pode não ser a mais valorizada, mas é a única que permanece. É a única que irá brilhar e reluzir para sempre.
Com melancolia, humor ácido e boas atuações, o drama americano Irmã narra o reencontro de uma noviça (Addison Timlin) com o irmão, ferido na Guerra do Iraque. Estreou em 6/10/2016

"Questão de imagem", filme de Agnès Jaoui

Por Caio Escorel caioescorel@outlook.com

Lolita, uma garota gordinha, é filha de um famoso editor e escritor de sucesso, Étienne Cassard. Lolita tem problemas com o pai. Ela acha que ele não presta atenção nela, pois está sempre preocupado com o próprio sucesso. Logo no começo do filme, Étienne e Lolita vão a uma festa. Lolita vê um homem jogado no chão. Um bêbado. Ela não pensa duas vezes antes de oferecer o casaco para ele. O contraste fica evidente para o espectador: de um lado, a generosidade e o desprendimento de Lolita; do outro, a insensibilidade e o egocentrismo do pai. 

A professora de canto de Lolita, Sylvia, trata a aluna com indiferença. Nunca faz elogios, não reconhece a bela voz que ela tem e está sempre muito ocupada. "Você está se ouvindo? Deixe fluir o som. Isso vem antes da música, entende? Não se deixe seduzir por você." Lolita responde que não corre esse risco. Não corre mesmo. Se o comentário não tivesse vindo de uma pessoa problemática, não teria irritado tanto.

Depois que Sylvia descobre que Lolita é filha de Étienne Cassard, escritor que admira, passa a ser atenciosa. A mudança é instantânea. "Queria dizer que você tem uma bela voz. Seu projeto é interessante." O que mais nos surpreende no filme Questão de imagem, no entanto, é o pai de Lolita, Étienne. É o mais duro de todos. Nem mesmo quando a filha faz sucesso ele consegue dizer que ela é boa. Étienne elogia inúmeras cantoras da apresentação, principalmente uma que é bonita, mas não a filha. A professora reconhece o talento de Lolita, uma vez que é transformada pela amizade com a aluna. O pai não consegue. Não pode. Não quer. Outrora passiva, Lolita explode: "Ela é cantora! O físico não importa!" Sylvia, a professora, dá razão para a nova amiga: "Era a noite dela, e você não lhe disse uma palavra." Outra pessoa presente na cena, um rapaz, também percebe o egocentrismo de Étienne. "Ele saiu no começo e voltou no final para aplaudir." 

A dureza do pai de Lolita é facilmente encontrada em várias pessoas. Ela é mais comum do que imaginamos, não sendo em nenhum momento privilégio do personagem. Quem não conhece o próprio valor costuma ter mais dificuldade em reconhecer o valor dos outros. Isso não tem importância, pois as pessoas sempre são o que são. Mesmo que a gente faça vista grossa.

Sunday, May 14, 2017

O inferno da consciência (filme Animais noturnos)
Por Caio Escorel caioescorel@outlook.com

Não existe inferno. A gente não precisa morrer para saber disso. Basta ter bom senso. Um Deus bondoso e misericordioso jamais permitiria que Espíritos ardessem em chamas eternamente. Temos mania de achar que Deus é como nós. Não é. Se fosse como nós, Ele estaria se nivelando por baixo. Seria, portanto, imperfeito. O único inferno que existe é o inferno da consciência. O inferno da consciência é um inferno que já começa aqui na Terra. Não para todos. Para a imensa maioria. Os Espíritos mais orgulhosos e endurecidos, incapazes de entrar em contato com as próprias maldades, sofrerão depois. Ninguém alcança os planos superiores sem antes experimentar pensamentos e sentimentos elevados. São nossos pensamentos e sentimentos que nos conduzem ao céu e ao inferno.
Animais noturnos, o segundo filme de Tom Ford, conta a história de Susan (Amy Adams), a dona de uma galeria de arte. Em um dia qualquer, Susan recebe em casa o manuscrito do livro que o ex-marido, Edward (Jake Gyllenhall), escreveu. O livro, por sinal, é dedicado especialmente para ela. Não se iludam, não é por acaso. "Você me inspirou. Queria que fosse a primeira a ler", diz o bilhete de Edward. O título da obra é o mesmo do filme: "Animais noturnos". Ao abrir o pacote, Susan corta o dedo. O sangue que vemos na tela representa o sofrimento que a personagem experimentará com a leitura. Não somente o sofrimento que ela experimentará, mas também o sofrimento que causou ao ex-marido. A cor vermelha, aliás, está sempre presente na história, significando sofrimento e morte. Susan terminou o casamento com Edward porque achava o rapaz muito sensível e romântico. Ela sentia inveja dele. A inveja é assim: tarda mas não falha. Não demora muito para que a história do livro provoque emoções e sentimentos fortes na dona da galeria. Susan acaba percebendo que o conteúdo do livro tem muito a ver com o relacionamento que viveu anos atrás. “Eu acho que ninguém escreve algo que não seja sobre eles mesmos”, disse certa vez o personagem de Jake Gyllenhall para a personagem de Amy Adams. Ele nem imaginava que um dia escreveria uma metáfora sobre a relação. Uma história onde ele, Susan e o amante da ex-mulher fossem interpretados por alter-egos.
O filme tem três camadas: a história de Susan, a história do livro e o passado do ex-casal. O final da história do livro é muito interessante. Não posso contar para vocês, mas adianto que é sensacional. É o preço que Edward paga - ainda que indiretamente - por se vingar de Susan. Que filme mais criativo! Que obra de arte! Adorei. Termino o texto de hoje com uma das falas de Edward (a que mais me tocou!). "Quando você ama alguém, tem que zelar por isso."

O anel da vida
Por Caio Escorel caioescorel@outlook.com
O senhor dos anéis, trilogia de Peter Jackson, não poderia ser mais emocionante. Frodo, o protagonista, assume o Fardo do Anel e busca levá-lo para a destruição. Ele não sabe por que foi escolhido para a missão, mas a gente entende. Ele foi escolhido porque tem humildade, autoconhecimento e bondade. A humildade, o autoconhecimento e a bondade de Frodo impediram que ele fosse seduzido pelo anel maligno. O anel do filme O senhor dos anéis é um anel diferente de todos os outros. Ele taz à tona o que existe de pior no ser humano: a ambição, o egoísmo, a vaidade, o orgulho e a inveja. Eu esperei ansiosamente pelo momento em que Frodo jogaria o anel no único lugar onde ele poderia ser destruído: o rio de fogo das terras de Mordor. Como Frodo estava exausto! Ele já não aguentava mais passar por tantas dificuldades. A sorte é que ele pôde contar com um amigo fiel, Sam. "Eu não posso carregar o anel por você, senhor Frodo, mas eu posso carregar você." 
A lenda O Discípulo Honesto, uma lenda judaica, tem muito a nos ensinar. Ela conta a história de um rabino que resolveu testar a honestidade de seus discípulos e convocou-os para uma reunião em que lhes foi feita uma pergunta:
- O que fariam se encontrassem pelo caminho uma carteira cheia de dinheiro?
Um dos discípulos respondeu:
- Devolveria para o dono.
O rabino pensou: "A resposta veio tão rapidamente que devo considerar se foi realmente sincera."
Um outro falou:
- Ficaria com o dinheiro se ninguém tivesse me visto.
O rabino disse consigo mesmo: "A língua é sincera, mas o coração é perverso."
E um terceiro foi dizendo:
- Bem, rabino, para ser honesto, ficaria tentado a guardar o dinheiro para mim. Portanto, pediria a Deus que me desse forças para resistir à tentação e agir corretamente.
E o rabino concluiu: "Aí está. Eis o homem em quem eu confiaria."
Espero que todo mundo possa chegar ao plano espiritual sentindo orgulho das ações praticadas durante a vida. Daremos risada de todos os sofrimentos que passamos, porque sentiremos que evoluímos. Será uma sensação parecida com a da personagem de O caso do vestido, texto do Carlos Drummond de Andrade. Não saberemos se o que vivemos foi sonho ou realidade. Não saberemos isso, mas teremos certeza de que progredimos um pouco mais. Muita força e paz pra você!


Saturday, May 13, 2017

Já escrevi três textos sobre o tema "Amar sem odiar". O assunto rende, por isso é o quarto texto sobre o tema. Amar sem odiar é a principal dificuldade do ser humano. Inúmeras pessoas têm dificuldade em fazer um elogio, reconhecer o valor do outro, prestigiar o outro e querer ver o outro feliz (verdadeiramente, não da boca pra fora). Eu fico espantado com a indiferença e a crueldade de algumas pessoas próximas, mas sigo em frente. Há pessoas que são indiferentes e cruéis até mesmo quando a gente está com um problema de saúde. Essas pessoas, infelizmente, irão ao nosso velório. Essas pessoas postam frases sobre o amor no Facebook. Essas pessoas criticam a frieza dos outros. Essas pessoas atendem em consultório. Há psicólogos e psiquiatras que escolheram a área de saúde mental porque se sentem bem quando o outro sofre. Muitos não confessam, mas são sádicos. Ver o sofrimento das outras pessoas faz com que não achem que a vida que levam é uma merda. Oferecem lencinhos para a pessoa enxugar as lágrimas, mas cutucam a ferida sem dó. Torcem para que a gente fale que a vida não está boa. E depois nos consolam. Eu tive uma psicóloga assim, a Tereza. Ela era uma incompetente. Não sabia conduzir a sessão, uma vez que eu, minha mãe e meu pai não conseguíamos nos entender. Ela gostava de ver o circo pegar fogo. A verdade é essa. Essa mesma mulher deu outros sinais de frieza e falta de compaixão. Tive alguns psicólogos/psicanalistas ruins. Vocês imaginam como eu me senti quando percebi que estava abrindo o meu coração para pessoas destrutivas e mal intencionadas? Um dos meus psicanalistas, o Claudio, era terrível. Ele me traiu na frente dos meus pais. Fingia sentir compaixão nas sessões em que apenas nós dois estávamos presentes. Outra profissional de saúde mental, a Santuza, não quis mais me atender. Não foi nem capaz de explicar por quê. Nem um psicanalista ela indicou. Intelectuais gostam de dizer que Deus não existe. Claro que não existe. Como é que pessoas arrogantes, orgulhosas e egoístas podem ter alguma intuição de Deus? Não é possível. E o que dizer das mães que falam assim “Eu amo meu filho, mas odeio ser mãe” Não estou inventando. É matéria da revista Marie Claire. Será que essas mães realmente amam os filhos? Uma das pessoas que me me machucaram, uma ex-professora, não poderia ter sido mais desumana. Eu tinha acabado de comentar as crueldades que vivi na Santa Casa. Falei para ela: "Você acha que eu, uma pessoa boa, merecia ter passado por essa violência?" Ela não se solidarizou com o meu sofrimento. Sabem o que ela falou?  "Se você fosse bom, você teria perdoado os seus pais." Ela falou isso mesmo sabendo que eu havia sido tratado como um animal. Mesmo sabendo que tinha sido amarrado e judiado. "Por que o Caio gosta tanto da Gabriela Duarte?", vocês devem estar se perguntando. A resposta é simples. Porque ela é boa. Porque ela tem a bondade estampada no olhar. Gabriela é muito legal comigo. Ela é amiga, é humana, é humilde... Você não encontra uma pessoa como a Gabriela Duarte facilmente. Nem no elenco da Globo e nem no mundo. Quando ela sente que fez algo errado, logo se desculpa. Gabriela não tem dificuldade em pedir desculpas. Ela inclusive já falou em entrevistas que toma muito cuidado para não magoar as pessoas. Estão vendo a grandeza? É esse tipo de gente que eu quero encontrar no céu. Quando Deus manda uma pessoa como a Gabriela para a Terra, as pessoas fazem coisas terríveis. Fazem coisas terríveis porque não são merecedoras de um ser humano tão bonito. Ela veio para a Terra porque é amorosa, não porque precisa. Gabriela saiu do quentinho do amor de Deus, não da lama dos sentimentos pequenos. Não de um plano inferior. Por isso que ela é generosa, desprendida e amiga. É isso que eu tinha para dizer. 
O gosto amargo da vingança 
Por Caio Escorel caioescorel@outlook.com

Ninguém gosta de ser ferido. Nem mesmo pessoas que fazem muito mal aos outros. Se não gostamos de ser feridos, não devemos ferir. É simples. O texto de hoje é sobre a vingança. A vingança não é outra coisa senão o ódio levado às últimas consequências. Patty Hewes (Glenn Close), a advogada de Damages, é terrível. Ela manipula, mente e contrata um homem para matar a sócia, Ellen Parsons. Mesmo sendo tão má, Patty tem um lado sensível. No que diz respeito ao sofrimento pessoal, é claro. Há uma cena em Damages em que Patty vai visitar o pai no hospital. A vilã não perde a oportunidade de se vingar. "Você fez tudo o que pôde para me destruir. Minha mãe ia à igreja orar por você. E eu nunca entendi por quê. Porque achava que você merecia ir para o inferno. Pela sua crueldade, brutalidade, por cada noite que chegou em casa bêbado e irado. Você nos aterrorizava. Nos provocava. Nosso medo o fazia se sentir grande e importante. Minha mãe nunca o o julgou. Mas eu o farei. Quero que se lembre deste momento para sempre. Do sentimento de impotência. De fraqueza. Eu olhando em seus olhos, dizendo o quanto o odeio. Não existe perdão para você. Nem piedade. Só a morte." ***(SPOILER)***
Ellen, a sócia de Patty, consegue provar que a chefe tentou acabar com ela. Algo, no entanto, impede a moça de denunciar a vilã: a bondade. "Posso mandar prendê-la por tentativa de homicídio. Mas a prisão não pode ser pior do que a perda de um filho", fala para a colega. Patty, que é muito esperta, não perde a oportunidade de rir da cara de Ellen, mostrando para ela que não é tão boa como imagina. A vitória de Ellen no tribunal, segundo Patty, é uma derrota. "Espero que já tenha entendido que ganhar o caso McClaren não significava nada para mim, Ellen. Só queria saber do que você era capaz." O prazer de Patty é corromper pessoas. A advogada faz isso com perfeição. Ellen não é malvada como Patty, mas também não é santa. A diferença entre as duas é que Ellen sofre com a percepção das maldades que pratica. Eu morro de pena da personagem, porque ela traz no rosto a tristeza da pessoa que teve a vida destruída por alguém sem caráter. Um trabalho maravilhoso de interpretação da atriz Rose Byrne. O mais lindo em Damages é a plasticidade do coração de Ellen. Uma plasticidade que Patty não possui. A cena em que Ellen consegue agradecer Patty é emocionante. É nesse momento que ela prova que é diferente SIM da concorrente. "Olá, Patty. Eu só... Eu queria... Finalmente agradecê-la. Sou muito grata. Por tudo." Não é o sofrimento que Ellen agradece, mas a oportunidade do autoconhecimento. Ela nunca sonhou aprender tanto a respeito de si mesma com uma psicopata. A vingança é boa e, por vezes, necessária, mas é mais do que isso. Acima de tudo, ela é esperançosa. A vingança nos dá esperança porque o ódio leva ao amor. Não é o caminho mais fácil, muito menos o mais gratificante, mas ainda assim leva ao amor. O ódio precisa ter fim, uma vez que é insustentável. Faz mal para o corpo. O amor não. O gosto amargo da vingança é a maior prova de que o ser humano não foi criado para fazer o mal. 

FORÇA 
Eu sempre digo em meus textos que a verdadeira força vem do amor. Muitas pessoas esquecem que no corpo pequenino de uma criança pode habitar um grande Espírito. Há mais força em uma criança bondosa do que em qualquer adulto musculoso. Leiam a carta que o garoto José Sánchez del Río, hoje santo, escreveu para a mãe momentos antes de morrer.
Cotija, 6 de fevereiro de 1928
Minha querida mamãe
Caí prisioneiro em combate no dia de hoje. Creio que vou morrer, mas não importa, mamãe. A senhora precisa se resignar à vontade de Deus. Não se preocupe com a minha morte, que é o que me deixa inquieto; pelo contrário, diga a meus dois irmãos que sigam o exemplo dado por seu irmão menor.
E a senhora precisa fazer a vontade de Deus, tenha força e me mande sua bênção, junto com a de meu pai. Transmita minhas saudações a todos, pela última vez. E receba o coração deste filho que tanto lhe quer, e que desejava vê-la antes de morrer. – José Sánchez del Río
TRANSFORMAÇÃO 
As pessoas que se transformam para melhor ficam bonitas. Bárbara, a personagem de Gabriela Duarte (O Vestido), demorou para entender isso. Bárbara foi contratada para atrapalhar um casamento de anos, roubando o marido de Ângela, a personagem de Ana Beatriz Nogueira. O momento que mais me emociona no filme, por incrível que pareça, não é uma cena. É a voz de Gabriela narrando tudo que precisou passar para aprender a ser boa. A ternura e o sofrimento na voz de Bárbara são comoventes. Mérito da Gabriela Duarte, essa grande atriz. "Rocei minha cara no chão, me puxei pelos cabelos, me lancei na correnteza, rezei 200 orações, me atirei numa sarjeta, me cortei de canivete, bebi fel, e nada valeu. Aquele homem sumiu."